Afinal, quando foi que aprendemos, que estarmos sozinha(o), é algo ruim?
Quando eu penso na minha infância, ainda consigo me lembrar do contexto escolar, e em casa. Algumas vezes, ao fazer algo que era considerado “errado”, a forma de tentarem fazer com que eu pensasse sobre meu comportamento, era me “proibindo” de fazer algumas coisas que eu gostava, e muitas vezes isso implicava em “não poder estar com outras pessoas” ou seja, não era permitido brincar com meus amigos(as) e isso significava ficar sozinho na sala de aula, em meu quarto ou sentado no sofá.
Ou seja, em minha cabeça de criança, ficar sozinho era algo “ruim”, além de ser privado de fazer/ter acesso as pessoas, e ou coisas que eu gostava, “o estar sozinho(a)”, também me parecia uma forma de “punição”. A intensão aqui, não é como cada pessoa pode interpretar esse contexto, mas sim, chamar atenção para alguns “sinais” que a sociedade nos apresenta, no decorrer da nossa história de vida.
Pensando em nosso contexto, um dos “marcadores que caracterizam o sucesso” e constantemente sinalizado pela sociedade, é a “necessidade” de ter um(a) parceiro(a). Tal cobrança, pode vir em frases como: agora só falta arrumar uma namorada/um namorado, ou “já está na hora” de pensar em ter alguém ao seu lado.
Você percebe, que indiretamente o estar sozinho pode soar como algo ruim, ou algo que diminui a possibilidade de sentir-se completo, somente consigo. É como se “ainda faltasse algo”.
Será que realmente, não é possível nos sentirmos completos/satisfeitos somente com a nossa presença? Ou esse comportamento, está relacionado à dificuldade de estarmos conosco?
Podemos pensar em alguns exemplos
Quando foi a última vez, que você esteve sozinha(o) em uma refeição, e conseguiu prestar atenção em você, ou seja, consciente do que estava acontecendo com você e em você naquele momento, sem ter a concorrência de outro estímulo para dividir sua atenção? (Não “aproveitou” o tempo, para ser produtivo e responder mensagens, não olhou redes sociais etc).
Você simplesmente escolheu estar ali consigo (vivendo o aqui e agora), tendo consciência da sua escolha, sentindo o sabor da refeição, da bebida, ou como era a textura, como seu corpo reagia as sensações que isso lhe trazia, se isso gerava saciedade, prazer etc. (Parece tão simples isso, não é? Mas, muitas pessoas na eminência da produtividade do TER e FAZER, perderam contato consigo, ao viverem no modo “automático”.
Talvez, seja necessário aprendermos a estarmos disponíveis para nós mesmos, com abertura e um olhar de curiosidade, aprendendo a estarmos sozinhos, em nossa presença, e isso não significa que algo deu errado ou está errado, e muito menos entendido como uma forma de “punição”, mas sim como uma escolha.
Também não significa, que é necessário e bom, estar sempre a sós consigo. Eu, particularmente gosto de pensar em autonomia, para conseguir fazer escolhas conscientes, sejam elas de estar acompanhada(o) de alguém/algo ou estar em minha própria companhia, sem que isso seja uma esquiva, na tentativa de evitar estar com seus pensamentos, sentimentos e emoções. Ou seja, se a escolha é estar com alguém, que seja de forma genuína, e não por uma tentativa de evitar a si mesmo, ou não saber lidar com a solidão.
Da mesma forma, se a escolha é estar sozinha(o), que seja uma escolha consciente, e não uma fuga/esquiva, na tentativa de evitar experiências ruins em relacionamentos.
Se nesse momento sua escolha foi estar consigo, está tudo bem, respeite-se!
Que tal aproveitar esse tempo consigo, para aprender mais sobre você, e aquilo que realmente tem significado para você? Da mesma forma, esse tempo, também lhe permitirá aprender sobre aquilo que você não gosta.
Muitas vezes, é importante redescobrir-se, a cada novo encontro consigo, conhecendo aquilo que gera prazer, refinando e descobrindo novas habilidades, reconhecer novos limites ou ajustar alguns e respeitá-los, isso também é uma parte importante no processo de autoconhecimento.
Respeite o seu tempo consigo, e tente perceber aquilo que acontece em você e para você, sem depender de nada nem ninguém para sentir-se completa(o).
Se você se identifica fazendo (fuga ou esquiva) e de alguma forma, gostaria de vivenciar isso de uma maneira diferente, busque ajuda de um(a) psicólogo(a).
Lembre-se: não existe saúde, sem saúde mental!
Ricardo Pádua
